Histórias de Lacrimejar

O cuidador dos óleos, o Seu Nivaldo

O cuidador dos óleos, o Seu Nivaldo

Se tudo se transforma, será que o óleo vegetal descartado por estabelecimentos pode se tornar outra coisa que não um potencial poluente? Foi a partir desse pensamento que o Seu Nilvado Cavalcante de Moura, habitante da Baixada Fluminense, começou uma rotina doida para fazer a sua parte em salvar o planeta. A dedicação começa às 3h da manhã, horário em que levanta para estar a tempo no Cantagalo às 5h. Apesar de não mais morar na comunidade, ele faz questão de manter o empreendimento onde tudo começou. O objetivo é garantir que conseguirá recolher o óleo de cozinha que sobra de bares que estão encerrando o expediente. Se isso já não parece pesado, o Sr. Madrugador vai dormir somente perto da meia-noite, já que não pode deixar de passar também nos estabelecimentos que fecham perto das 23h. Ufa!

A ideia de recolher o óleo vegetal aconteceu após ficar sabendo de uma pesquisa desfavorável para o Complexo Pavão-Pavãozinho e Cantagalo (PPG), localizada no Rio de Janeiro, onde morava. Os números apontavam a PPG como a favela mais suja do estado (!). Na época, o governo estava implementando programas sociais focados na limpeza e no meio ambiente, mas que não chegavam à comunidade. Se as políticas públicas, que poderiam sanar o problema, não se preocupavam em oferecer uma prevenção, o Salvador dos Óleos e um amigo decidiram que se preocupariam. Então, começaram a mudança por conta própria: “Se estão fazendo o Rio+Limpo, o nosso programa vai ser Favela+Limpa”, ele conta. E, assim, foram atrás do que os outros não queriam mais: latas e garrafas pet, para fazer o armazenamento do produto.

Apesar da experiência em falar sobre seu negócio, Seu Nivaldo não tem formação em química, sequer é técnico na área. Como ele sabe o que está fazendo? Exatamente como muitas pessoas que têm um objetivo, mas não têm as oportunidades necessárias: foi atrás de tudo sozinho. Chamou os amigos e foi pra Internê. Pronto, estava formada a sua iniciação à reciclagem de óleo vegetal.

Num ambiente em que a sustentabilidade apenas é ouvida falar, o Senhor dos Óleos conseguiu que a comunidade entendesse, pouco a pouco, a diferença que esta palavra poderia fazer não somente para o ecossistema, como também para cada morador. A palavra-chave foi estabelecer uma troca. E iam trocar pelo quê? Por tudo o que fosse útil: produtos de limpeza, em sua maioria, como sabão, vassoura e pano de chão. Assim, ao invés de o óleo entupir o encanamento – porque era jogado em pias e vasos sanitários –, ir parar no esgoto e contaminar o ambiente, virava sabão no Centro de Reciclagem de Óleo Vegetal.

Argumentar com os moradores e fazê-los entender que o estranhamento faria sentido quando comprassem a ideia não foi fácil. A proposta, aos olhos dos outros, parecia coisa de outro mundo. Mas a divulgação e o contato cara a cara com as pessoas conscientizaram mais facilmente. Um banner convida a todos a colaborar, bem na entrada da reciclagem, assim como placas de ferro espalhadas por muros e calçadas pela PPG. Ainda que esse marketing consiga atingir o objetivo, o Rei dos Óleos não deixa de investir no relacionamento estreito que tem com a comunidade. Sempre reforçando presencialmente sobre o descarte responsável.

Resolvendo um problema


O sucesso aconteceu: entre 400 e 500 litros de óleo chegam todos os meses, sendo que 50 a 70 litros se tornam sabão pastoso, qualidade bastante próxima do de uso comercial. E não era mais fácil vender o negócio e deu? Sim, mas o Seu Nivaldo quer resolver um problema. E ao transformar o óleo em sabão lá estava a solução! “O meu objetivo é atingir o máximo de pessoas e ainda com o custo-benefício da moeda de troca”, ele diz.

Quando Seu Nivaldo abriu sociedade no salão de beleza, focado na transformação e reaproveitamento do óleo vegetal, já entendia que esse processo impactava diretamente nas questões de saúde e qualidade de vida da população da comunidade. Ele explica que, mesmo quando a sustentabilidade ainda era pouco conhecida, havia outros salões com esse mesmo intuito, no entanto, decidiu assumir o posto somente da reciclagem sem perder clientes.

Se, hoje, o principal sustento da família dele vem da reciclagem prova que a união entre a sustentabilidade e o empreendedorismo existe e que coopera ativamente no equilíbrio da sociedade. O cara da sustentabilidade deixa uma dica: acreditar e não contar com o dinheiro de terceiros, seja o governo ou de pessoas próximas.

A nova meta, agora, é abrir uma loja para expor os produtos, mas isso requer funcionários. Acostumado a trabalhar sozinho, Seu Nivaldo sabe que precisa de alguém quando estiver fora, fazendo as coletas.

E aí? Tá esperando o que pra começar a prosperar também?

*Agência Besouro / Redatora: Marina Spim

Outros Cases de Sucesso

Agência Besouro
whatsapp
whatsapp
maps
facebook
instagram
Inovando Sites Criação de Sites Porto Alegre