Histórias de Lacrimejar

A literatura também é preta

A literatura também é preta

Quantos livros de autores e autoras negros você já leu? Dois? Um? Nenhum? Tenha certeza que isso não se deve ao mero acaso. É mais uma consequência do racismo no Brasil. Para mudar esse cenário, a Joyce Ferreira de Oliveira, 30 anos, do Rio de Janeiro (RJ), lançou o projeto Camutuê.

Joyce soube do curso Empreendedor Cultural por meio do grupo no WhatsApp do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) da Universidade Federal Fluminense (UFF), do qual faz parte. O negócio da Joyce é uma livraria itinerante que fornece um acervo selecionado a partir de uma perspectiva étnico-racial.

Segundo ela, o nome vem da umbanda, onde as entidades das casas costumam falar camutuê quando se referem à cabeça. “Então, o nome da livraria é uma forma de referenciar as religiões de matriz africana e simbolizar as mentes em interação por meio da leitura”, conta.

Joyce é formada em Letras pela UFF. “Entrei em 2006 e me formei 10 anos depois, enfrentando todos os desafios de uma universidade muito mais elitista e racista do que é hoje. Nessa caminhada, escolhi o caminho da Literatura, focando no ensino básico e nos territórios periféricos. Entendi minha ancestralidade e meu dever com a luta antirracista, pra afirmar minha expressão e ocupar espaços negados”, destaca.

Durante a graduação, a empreendedora conta que conheceu uma professora – a única negra na história da UFF, que é a idealizadora da Nandyala Editora, fundada por mulheres negras em Minas Gerais, que edita, divulga e comercializa obras de autores(as) africanos(as), da diáspora negra e de indígenas.

Nessa época, Joyce fez ilustrações para um dos títulos (ela também trabalha com artes visuais, arte urbana e arte-educação). Então, novas portas se abriram. “Comecei a trabalhar com a Nandyala a representando em eventos e há anos apoio o trabalho da editora como freelance. Assim, me tornei alguém de confiança”, pontua.

No mês de julho, a besoura aceitou a proposta de distribuir os livros no Rio de Janeiro, podendo levar também de forma independente a eventos. “Mas não havia planejado, nem organizado isso. Então, a livraria preta itinerante Camutuê nasceu e eu estou tentando criá-la”, diz, aos risos.

A metodologia By Necessity chegou na hora certa. “Precisava de apoio para pensar meu negócio e desenvolver estratégias, pois ele já existia antes mesmo de eu conseguir concretizar a iniciativa. Me deu um gás pra entender meus gastos e o que é a minha marca e meus serviços”, explica.

O desejo é fechar parceria com eventos, universidades e feiras, para exposições, ou entregar em pontos de encontro. Além da Nandyala, Joyce trabalha distribuindo obras de outros livreiros de literatura preta. “Tem muita demanda, os pesquisadores buscam muito. Porque esse material não chega a grandes livrarias, então tenho exclusividade”, salienta.

Não daria para terminar sem uma dica de leitura, né? Lá vai: As Andorinhas, de Paulina Chiziane. “É um livro de contos que gosto sempre de mostrar, pois eles refletem muito sobre as colonialidades e o lugar da liberdade nesse contexto”, completa. E adivinhe? Foi para esse mesmo que ela emprestou seu talento de ilustradora. Desejamos que Camutuê trilhe muitos caminhos!

Redação: Priscilla Panizzon/Agência Besouro

https://www.facebook.com/nandyalalivrariaeditora/

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